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Na reflexão do segundo dia da novena, Dom Zenildo comparou a construção do novo Santuário com a experiência da romaria. “A nossa vida é um peregrinar construtivo e ninguém se constrói se não caminha”.
Dom Zenildo Lima da Silva, bispo auxiliar de Manaus/AM, pregou o segundo dia da novena solene em louvor ao Divino Pai Eterno. O tema: “Pai Eterno, em Vosso Filho irmanados dizei-nos: caminhai!” inspirou a pregação sobre o compromisso missionário e a construção de nossas comunidades e de toda a sociedade.
O bispo também fundamentou sua reflexão em sua própria experiência como romeiro em Trindade. E ao final da celebração, declarou que deixa a cidade com muitas perguntas em sua experiência de fé. “Sinal de que terei que voltar outra vez”, declarou.
A seguir, a transcrição de sua pregação:
Confesso que preparei umas dezoito páginas para essa pregação. Mas não sei se vou ler tudo. Saúdo a todos os peregrinos, e lembro que também estou aqui como peregrino. Se não for assim, não consigo entender essa romaria. Estou vindo de longe, de Manaus, e saúdo os manauaras que estão aqui. Hoje pela manhã o Irmão Michael me levou para conhecer a Vila São Cottolengo. Que obra bonita! Que obra de vida! Mas depois eu fui levado pra ver a obra a construção do Novo Santuário. Para aqueles que acompanham essa transmissão pela TV, enquanto se cantava o salmo, puderam ver imagens da construção da obra do santuário. Quanto concreto! E quanta coisa por fazer! Um sino enorme! Muito concreto, muito bronze… E agora estou aqui, diante de vocês, na nossa troca de olhares. Quantos rostos… E fiquei me perguntando: o que uma coisa tem a ver com a outra? O que aquele concreto tem a ver com aquela obra, e o que nós aqui temos a ver com esse concreto e a obra… e o que tem a ver comigo, nessas 24 horas em que estou aqui? Muito mais perguntas do que respostas né.
Uma atitude fundamental que a gente experimenta quando faz a experiência da romaria, é viver um caminho que é de peregrinação. A gente não vem para uma experiência como essa pra sair do mesmo jeito. A gente não vem pra uma experiência como essa pra voltar pra casa do mesmo jeito, com as mesmas ideias e com as mesmas convicções. O fato de estar aqui, a experiência vivida aqui, suscita perguntas no coração da gente, ou dor, nas nossas convicções mais fortes. E a gente sai daqui fortalecido, fortalecida, ou questionando as nossas convicções. Igualmente saímos daqui fortalecidos e fortalecidas.
Mas uma coisa eu aprendi hoje: estamos todos em construção. Estamos sempre em construção! A nossa vida é um peregrinar construtivo e ninguém se constrói se não caminha. Ninguém se torna ninguém, e ninguém existe se não caminha. Por isso, nosso Pai Eterno, é Ele que nos diz, por meio de seu filho Jesus: Caminhai! Quando a gente caminha, a gente se mostra! Quando a gente caminha, nós revelamos quem nós somos. Nós só sabemos de Deus, que ele é o Pai Eterno; nós só sabemos da Trindade Santa, e do Divino Espírito, porque Deus caminhou no meio de nós.
Caminhar é mostra-se. Caminhar é revelar-se. Caminhar é deixar-se construir de fato. Quando a gente quer se esconder, quando a gente parece ter culpa no cartório, ficamos miudinhos, ficamos quietos, não nos movemos, não caminhamos para não sermos percebidos. Caminhar é arriscar. É deixar-se perceber pelo outro. Caminhar é dar ao outro a possibilidade de nos conhecer. Caminhar é nos deixar construir.
O Santuário tem uma inteligência extraordinária na construção desta Romaria. No conteúdo desta Romaria, ao selecionar as temáticas pra cada noite, mais que somente “chavões”, mas um caminho passo a passo que a gente vai vivendo. E nos colocou, na noite de hoje, centralizados na pessoa de Jesus, mas compreendendo a verdade de Jesus a partir da caminhada. Por meio de Moisés, que disse ao povo que se ponha em marcha, era preciso esta intervenção de Deus, era preciso esta palavra forte de Deus, porque o povo estava enterrado. Nós precisamos de uma palavra forte de Deus que se dirija a nós, aos nossos medos, às nossas teimosias, aos nossos apegos. Por-se em marcha!
O trecho que precede a leitura que foi bem proclamada pra nós conta que o povo antes murmurava e reclamava “como Moisés você nos trouxe pra quê? Pra morrer na estrada? Você nos faz caminhar pra que a gente perecesse no caminho? Não era melhor ter ficado no Egito? Não era melhor ter permanecido onde nós estávamos?”. É lamentável, quando um homem ou uma mulher, quando uma pessoa não se dispõe a caminhar porque está demasiada pegada a relações. Em relações que escravizam! É preocupante quando uma comunidade de fé, uma comunidade eclesial, as comunidades das nossas paróquias, muitas das quais nós fazemos parte, não avança, não caminha, porque estão enterradas em modelos pastorais que não respondem mais.
Na noite de hoje, nós celebramos com o recair da evangelização e a busca constante da Igreja para que as nossas comunidades caminhem. E uma das muitas dificuldade é dar passos, porque estão arraigadas a modelos que escravizam. Percebe quando uma sociedade não consegue caminhar quando está demasiadamente arraigada em momentos históricos que descrevem escravidão. A dureza do coração do faraó não ficou no passado. Os egípcios se arrependeram de ter deixado o povo partir e se arrependeram do bem que fizeram de novo. Se propuseram a perseguir o povo, para impor fardos nos seus ombros. A gente vê em nossa pátria quem tem responsabilidade de legislar e de cuidar do nosso povo, qualquer migalha que oferece ao povo, rapidamente e se arrepende e de novo começam as tramas para colocar nos ombros do povo peso e mais peso. É a dureza do coração do faraó que permanece, e o povo não consegue avançar. Não conseguimos nos tornar um país mais justo, mais fraterno. Não conseguimos nos tornar comunidades mais ousadas, mas evangelizadoras, todas mais missionárias e nem conseguimos nos tornar homens e mulheres mais livres. Somos apegados a relações que nos escravizam.
Mas é aí que Deus nos coloca em momentos cruciais para decidir. Decidir caminhar! Nós fazemos isso em momentos difíceis, quando a gente está entre a fúria e a aparente incerteza do Mar Vermelho. Quando, diante de nós, parece não ter uma situação da qual nós temos domínio e clareza, como dar o primeiro passo? Se eu não tenho certeza, como dar o primeiro passo? Se a realidade diante de mim, parece ser estranha, como dar o primeiro passo na direção do mar que se mostra também agressivo? A única confiança que nós temos está em uma palavra com autoridade, que nos vem do próprio Deus: “Diga ao povo que se coloque em marcha, e a marcha na direção do mar”. Foi a experiência de atravessá-lo a pé enxuto.
A narrativa desse texto não é pra mostrar um Deus que humilha inimigos não. Mas é para mostrar o conflito entre hebreus e egípcios. A narrativa nos conduz para mostrar a experiência da peregrinação, do caminhar com a força de Deus. Agora os egípcios sabem: Ele é Senhor! Agora o povo sabe, o povo crê, acredita em Deus e em Moisés. Diz o texto: nossa caminhada não são passos errantes. O nosso Santuário nos propõe nesta noite, irmanados em Jesus - e o trecho do Evangelho é de uma beleza extraordinária, é o início do Evangelho de Marcos, nos envolve numa jornada com Jesus. Jesus cura pessoas, vai na casa e cura a sogra de Pedro, e no trecho proclamado para nós vemos Jesus na porta deste lugar. O evangelista faz questão de dizer que toda a cidade correu na direção daquela porta.
Estamos no Ano Santo, e nesses dias, por meio da TV Pai Eterno, a gente tem insistido que na romaria deste ano, com este Ano Santo da Esperança, que um grande sinal é a porta de toda a cidade. Nesta porta está Jesus: Ele é a porta! A gente talvez assim compreenda porque tanto concreto, porque tanto investimento, porque queremos um espaço assim na cidade. As nossas peregrinações são conflitos na cidade, as nossas peregrinações são de disputa de espaço no trânsito, e a gente disputa espaço nas instituições… A cidade faz da nossa peregrinação uma peregrinação cansativa. A gente quer ir pra um lugar que nos ofereça a resposta, um lugar que nos ofereça descanso, um lugar que nos ofereça cura, um lugar aonde a força do mal seja expulsa. Toda a cidade vai ao encontro de Jesus na porta. E se o nosso desejo que o futuro santuário se torne um lugar para essa experiência, se torne porta, por isso a gente se compromete com esta obra desde que se torne porta para nós no lugar da experiência do encontro amoroso com Jesus.
Jesus cura as pessoas. Eles vão ao encontro de Jesus quando a noite tem que esperar escurecer. Mas para isso eles têm que esperar o sábado acabar. Não podem ir atrás de Jesus, porque é sábado e não podem ir atrás de Jesus, pois há um preceito religioso. Não podem ir atrás de Jesus, porque a legislação, a tradição, a rubrica não está deixando o povo acessar a maravilha e a grandeza de Deus. Eles têm que esperar passar o sábado, eles têm que esperar passar a legislação religiosa. Como é possível a gente impor aos nossos ombros legislações em práticas religiosas que não nos deixam acessar a grandeza e a misericórdia de Deus! O povo é sábio, e o povo sábio driblou a prescrição e foi a noite se encontrar com Jesus.
Às vezes, na noite, a esperança da gente se arrefece. Às vezes, na noite, as expectativas da gente parecem diminuir, Às vezes na noite emerge medo, insegurança. Quem já passou pela experiência de ficar internado em leitos hospitalares, sabe o que significa a noite. Numa internação de hospital a gente vê lá a noite toda esperando o dia amanhecer. Mas é nesta noite, nesta ocasião também desafiadora que o povo toma decisão de se encontrar com Jesus, caminhar com Jesus, caminhar a partir de Jesus numa caminhada orientada pela pessoa de Jesus. É uma caminhada que sempre é para o outro, sempre é por causa do outro.
E a gente descobre, então, que não caminhamos só por causa de nós mesmos. Quantos de nós estamos aqui, quantos de nós nos fazemos romeiros, quantos de nós damos um passo à frente do outro e estamos aqui, e viemos aqui por nossa causa, mas também por causa de alguém que a gente ama, por causa de alguém que a gente quer bem, por causa de alguém que a gente quer que também ele participe dessa salvação e deste amor de Deus. A caminhada para Jesus e a caminhada com Jesus é uma caminhada profundamente envolvente. Nos outros e nas outras, quando a gente caminha com Jesus e a partir de Jesus, a gente descobre muitas vezes o sentido das nossas caminhadas.
A caminhada de Jesus e com Jesus não deixa ninguém pra trás. E eu fiquei pensando agora naquela experiência vivida hoje pela manhã na Vila São Cotolengo: quanta gente pode ser deixada pra trás por causa da enfermidade. Quanta gente é deixada para trás, porque não conta numa sociedade que consome. Quanta gente é deixada para trás porque não caiu na nossa simpatia. Quanta gente é deixada para trás porque sofre condenações religiosas. Quanta gente é deixada para trás porque, em nome de alguma religiosidade, preferimos não contar com os outros.
Não é assim a caminhada de Jesus. A caminhada de Jesus não deixa ninguém para trás, não abandona ninguém. Na noite de hoje, irmanados em Jesus, nos damos conta que o nosso caminhar é também ir ao encontro das pessoas. Que o nosso caminhar é também segurar na mão do outro. Que o nosso caminhar é semelhante ao de Jesus, e nos remete a uma experiência muito íntima com o Pai Eterno.
Depois que curou as pessoas, Jesus se retirou para viver sua intimidade com o Pai. Mas depois se colocou em caminho de novo. Temos que ir para outros lugares. Ficaremos aqui por esses dias, e vocês mais do que eu terão uma oportunidade extraordinária de intimidade com o Pai Eterno. E no final da romaria, como Jesus, irão dizer “Tenho outros lugares para ir. Tenho outros corações para alcançar. Tenho outras pessoas para cuidar”.
Povo de Deus é muito sábio! Eu nem li as minhas páginas! Mas sabe que eu penso como o povo tem uma sabedoria quando se dispõe a caminhar e não tem medo mesmo. Que tudo se faça difícil mesmo, que diante de nós esteja o mar! O povo aprendeu a dizer: “Segura na mão de Deus, pois ela te sustentará. Não temas, segue adiante, e não olhe para trás. Segura na mão de Deus e vai...” E o povo é sábio: Segura na mão de Deus, e na Mãe de Deus que está conosco!
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Para sempre seja louvado!
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