Sexta, 04 Julho 2025 08:37

Perdoar, quando é mais fácil vingar Destaque

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Dom Roberto José lembra que, se o anseio cristão é um mundo de paz, é preciso que ela seja mais que um tema de oração, mas uma decisão de vida.

No sétimo dia da novena preparatória para a Festa do Divino Pai Eterno, o tema proposto para a reflexão foi: “Pai Eterno, nosso anseio cristão é um mundo de paz e harmonia”. O bispo de Janaúba/MG, Dom Roberto José da Silva, pregador deste dia, convidou a todos a compreender o que é a paz. “Antes de sermos peregrinos da esperança, somos exilados da paz”.

O bispo questionou: “Já nos acostumamos com a ideia de que ‘o mundo é assim mesmo’?”. E exortou cada fiel à refletir: “O mundo não será transformado por grandes ideias, mas por pequenos gestos de paz, repetidos com fidelidade”.

A seguir, a transcrição da homilia do bispo de Janaúba/MG, Dom Roberto José:

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Para sempre seja louvado!

Caríssimo Dom João Justino de Medeiros Silva, digníssimo Arcebispo Metropolitano de Goiânia - a quem tomo a liberdade de chamar de amigo de vários anos; Dom Danival Milagres Coelho, bispo auxiliar; padre João Paulo, Superior Provincial dos Redentoristas, e o Pe. Marco Aurélio Martins da Silva, Magnífico Reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, na pessoa dos senhores saúdo todos os peregrinos que nos acompanham de perto ou de longe, através dos diversos meios de comunicação. Quero dirigir também, uma saudação especial à minha mãe que nos acompanha de longe, pela TV Pai Eterno, familiares e a minha querida Diocese de Janaúba, lá no norte de Minas, a qual tenho servido. A todos indistintamente desejo Paz e bem!

Meus irmãos e irmãs, o subtema de nossa novena proposto para este dia é: “Pai Eterno, nosso anseio cristão é um mundo de paz e harmonia”, por isso, hoje, não falaremos da paz como quem fala de algo distante. Falaremos dela como de uma lembrança esquecida, como um perfume da casa de onde viemos; e para onde voltamos. Porque antes de sermos peregrinos da esperança, somos exilados da paz.

Fomos criados para a harmonia. Não como ideia; mas como morada. Tudo em nós foi pensado para a comunhão: os olhos para encontrar, as mãos para acolher, o coração para recordar. Mas, com o tempo, fomos nos ferindo uns aos outros, e ferindo também o lugar da paz dentro de nós.

Desde então, buscamos. Buscamos uma paz que não sabemos nomear, mas que sentimos falta cada vez que brigamos com quem amamos. Cada vez que julgamos antes de escutar. Cada vez que escutamos ou vemos as diversas forma de violência vivenciadas pela humanidade, através das guerras e das diversas formas de injustiças.

Cada vez que deixamos de estender a mão, porque o orgulho parece mais urgente que o amor. Há uma paz que ainda não conhecemos por inteiro, mas que já nos habita em silêncio. Ela tem o cheiro das primeiras manhãs do mundo e a promessa dos últimos dias do tempo. Essa paz tem um nome escondido: chama-se eternidade. Mas aqui a chamamos de “Pai.”

Hoje não falamos da paz como quem estuda um conceito. Falamos dela como de um rastro esquecido. Um vestígio do lugar onde tudo começou: o coração do Pai. De lá viemos. E é para lá que nossa esperança aponta, mesmo quando cansada.

Isaías, hoje, nos entrega uma imagem cheia de ternura e provocação: “O lobo habitará com o cordeiro...” Mas... e se ele não estivesse falando só de animais? E se ele estivesse falando de mim e de você? Do lobo que me habita nas horas de impaciência. Do cordeiro que vive escondido nas horas de oração. Do conflito entre o que eu gostaria de ser e o que sou de fato. A paz que o Pai Eterno sonha começa quando esses dois, dentro de nós decidem parar de brigar.

A paz começa quando o lobo se deixa tocar pela mansidão do Cordeiro. Não será o mundo que mudará primeiro. É o nosso olhar. O que Isaías viu não é utopia; é profecia. É a descrição de um mundo possível, mas só para os que aceitam ser transformados por dentro. Porque o Reino começa assim: como broto em tronco seco. Como perdão depois de anos. Como silêncio que interrompe a ofensa. Como lágrima que se transforma em gesto.

Mas será que ainda acreditamos nesse broto? Ou já nos acostumamos com a ideia de que “o mundo é assim mesmo”? E quando foi que deixamos de esperar pela paz?

Isaías fala da paz entre os animais... mas sabemos: essa luta também vive dentro de nós. O lobo; que morde, que julga, que se apressa. O cordeiro; que escuta, que se oferece, que espera. Todos os dias, esses dois se olham nos olhos dentro de nós. E a paz começa quando o lobo ajoelha, e o cordeiro canta.

Mas para que isso aconteça, é necessário coragem. Coragem de deixar de ter razão. Coragem de pedir perdão sem receber nada em troca. Coragem de amar... sem garantias.

Por isso, te pergunto com carinho e franqueza: Em tua casa, reina a paz do Cordeiro ou os gritos do lobo? Tens buscado reconciliar ou apenas repetir o ciclo da divisão? Tua fé tem transformado tuas atitudes ou só decorado tuas palavras?

Se queremos um mundo de paz, precisamos antes ser pessoas de paz. Se desejamos harmonia ao redor, é preciso permitir que o Espírito pacifique nossas feridas mais escondidas.

O Salmo de hoje é um suspiro de quem crê: “A justiça caminhará à sua frente, e a salvação há de seguir os passos seus.” “A paz se encontrará com a justiça.” Aqui está o segredo: não há paz sem justiça. E não há justiça sem conversão. A esperança cristã não nos anestesia da realidade, mas nos impulsiona a agir com coragem no mundo.

A paz não nasce onde há mentira, nem cresce onde há injustiça. Ela floresce quando o homem se volta para Deus e se reconcilia com seu irmão. E é esse movimento de retorno que define o verdadeiro peregrino: não é apenas quem caminha para o Santuário, mas quem se deixa tocar por Deus no meio do caminho. Quem se reconhece cansado, frágil, impaciente... mas ainda assim, segue. Quem diz: “Pai Eterno, ainda que tudo desabe, minha esperança está em Ti.” Vamos repetir: “Pai Eterno, ainda que tudo desabe, minha esperança está em Ti.”

É por isso que o salmista canta: “A justiça caminhará à sua frente, e a paz se encontrará com ela.” Insisto com o salmista: A paz não virá sem justiça. E a justiça começa quando o orgulho cede lugar à escuta, quando o medo cede lugar à confiança, quando o meu direito cede espaço ao bem do outro.

No Evangelho, Jesus diz algo que precisamos guardar profundamente: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Não a dou como o mundo a dá.” Jesus nos deixa um presente. Mas não é um presente qualquer; é uma herança viva. A paz de Jesus não é conformismo. É combate interior. É renúncia do orgulho, do egoísmo, do desejo de controlar tudo. É coragem de ser manso. Coragem de ser justo quando seria mais fácil ser indiferente. Coragem de calar quando se poderia ferir. E, por isso mesmo, a paz do Cristo não nos deixa em paz. Ela nos inquieta. Ela nos empurra.

A paz de Jesus não é ausência de problemas, mas presença de sentido. Não é uma trégua; é uma entrega. É a certeza de que, mesmo em meio ao caos, o Coração do Pai ainda nos guia, nos sustenta e nos envia.

E aqui, o Senhor nos convida a um exame de coração: Tenho vivido como alguém em paz com Deus, comigo e com os outros? Que feridas ainda alimento? Que mágoas preciso entregar ao Pai para que Ele me renove? Com quem preciso me reconciliar ainda hoje? Quem são os pobres, doentes, tristes e esquecidos que eu posso visitar? Tenho sido fermento de paz na minha casa, no meu trabalho, nas redes sociais?

O Pai Eterno deseja um mundo de paz; mas Ele espera que essa paz comece comigo e com você.

Meus irmãos, a nossa esperança não é frágil como a do mundo. A nossa esperança é Cristo. E quem caminha com Cristo, mesmo que tropece, não caminha em vão. Ser peregrino de esperança é não se entregar à desesperança, nem permitir que a escuridão vença a luz. É saber que o Reino de Deus já está em construção, mesmo que lento, mesmo que escondido.

A paz virá; mas ela vem como veio o rebento do tronco de Jessé: sem barulho, sem pressa, sem glória. Vem em gestos pequenos. No perdão escondido. Na mão que se estende. Na palavra que não julga. No joelho que se dobra.

Ser peregrino de esperança é andar com os pés no chão e os olhos no Céu. É carregar o mundo nas costas sem perder a confiança. É caminhar, mesmo quando tudo diz para parar. Peregrinos de esperança são aqueles que: perdoam quando é mais fácil vingar; recomeçam quando o cansaço domina; se doam mesmo sem aplauso; e guardam no coração a paz de Jesus como um tesouro que não se pode esconder.

Queridos irmãos, o mundo não será transformado por grandes ideias, mas por pequenos gestos de paz, repetidos com fidelidade.

“Pai Eterno, nosso anseio cristão é um mundo de paz e harmonia.” Essa frase pode ser apenas um tema... Ou pode ser uma decisão. A decisão de sair desta celebração com o coração mais parecido com o do Filho.

Irmãos e irmãs, prestemos atenção, pois, há um vestígio do Éden que ainda nos habita. Uma brisa. Um sussurro. É o Pai que passa, em meio aos ruídos do mundo, e nos diz baixinho: “Ainda há tempo. Ainda podes ser paz. Ainda podes ser luz. Ainda podes voltar para Mim.”

Que hoje, ao levantar os olhos para o céu, cada fiel aqui reunido possa dizer - não com a boca, mas com os passos: “Pai Eterno, eu volto. Eu quero ser paz. Eu quero viver mansamente. Eu quero ser peregrino de esperança.” E que o mundo, ao cruzar conosco, sinta em nós um leve perfume...como se tivesse passado por alguém que morou, por um instante, no coração do próprio Deus.

Pai Eterno,

Tu que és silêncio, que escuta e voz que chama,

acolhe este povo que caminha com os olhos fixos em Ti.

Tu nos vês peregrinos; cansados, sim,

mas com os pés no chão e a esperança no peito.

Tu nos conheces por dentro,

e mesmo assim nos amas como somos.

Ou talvez… justamente por sermos assim:

frágeis, mas abertos ao Teu toque.

Senhor, nosso anseio é por paz,

mas não qualquer paz:

queremos a paz que vem de Ti,

que brota do Coração do Teu Filho,

que transforma feridas em caminhos novos.

Dá-nos, Pai, a graça de começar essa paz em nós:

nas palavras que usamos,

nas decisões que tomamos,

nos abraços que negamos; e agora queremos oferecer.

Que a Tua justiça nos preceda,

que a Tua verdade nos habite,

e que a Tua misericórdia nos reconcilie.

Fazei-nos, ó Pai, peregrinos da esperança,

não apenas quando subimos Teus altares,

mas sobretudo quando voltamos à vida comum:

à casa, à mesa, ao trabalho, ao irmão.

Que por onde andarmos,

alguém Te perceba;

porque, mesmo em silêncio, carregamos a Tua paz.

Amém.

Última modificação em Sexta, 04 Julho 2025 08:39
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