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Quinta, 03 Julho 2025 08:26

A graça e a oração: sinais concretos de nosso peregrinar na esperança Destaque

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A qualidade de vida de oração foi a chave da reflexão apresentada por Dom José Roberto.. 

Temos fome e sede de Deus, porque temos fome e sede de eternidade”, disse o pregador do sexto dia da novena solene da Romaria do Divino Pai Eterno. O bispo auxiliar de Goiânia, Dom José Roberto dos Reis, propôs uma reflexão sobre a vida na graça e destacou a importância da oração para alimentar a esperança no coração dos cristãos.

Lembrando o testemunho dos pioneiros da Romaria, Constantino Xavier e Ana Rosa, disse que “quem não se alimenta em graça e oração, não percebe a ação de Deus nos acontecimentos mais simples da vida”. Foto: Dom José Roberto

A seguir, a transição da pregação de Dom José Roberto:

Mais uma vez, esta colina sagrada, este Santuário Basílica é onde o Pai Eterno escolheu para nos fortalecer na esperança. Todos os anos nos achegamos aqui, com os pés cansados, corações sedentos e mãos postas em súplica e, todos os anos, saímos com os pés fortalecidos, corações saciados e nossas súplicas acolhidas pelo amor do Pai Eterno.

Celebrando este sexto dia da novena, vamos meditar sobre as leituras bíblicas e sobre o tema escolhido para esta noite: “Pai Eterno, caminhamos alimentados em graça e oração”. Também hoje o Pai Eterno que nos alimenta em graça e oração para seguirmos nosso caminho de fé na família, no trabalho e na vida em comunidade.

Ouvimos, na primeira leitura, a instituição do Ano Jubilar na tradição bíblica, narrada no livro do Levítico. É Deus que na sua paternidade divina quis que seu Povo vivesse um ano de reconciliação, perdão e harmonia. Ele pede a Moisés que organize entre o Povo o ano sagrado do Jubileu, como o ano da graça do Senhor. Entre os pedidos mais fortes de Deus a Moisés estão estes: a partir da vivência do ano jubilar, ninguém mais explore seu irmão, que não maltrate a terra que produz os alimentos, que os escravos sejam libertados, que todas as dívidas sejam perdoadas. É um verdadeiro convite a viver o Tempo da Graça, da bondade de Deus, do bem e da Justiça que devem reinar nas relações humanas.

O Papa Francisco, ao instituir este ano do Jubileu da Esperança, disse: “a esperança nasce do amor e funda-se no amor que brota do Coração de Jesus trespassado na cruz. E a sua vida manifesta-se na nossa vida de fé, que começa no Batismo, desenvolve-se na docilidade à graça de Deus e é por isso animada pela esperança, sempre renovada e tornada inabalável pela ação do Espírito Santo.

O Papa Francisco ressalta que a esperança se desenvolve na “docilidade à graça de Deus”. A graça é, acima de tudo, o dom do Espírito que nos santifica. É a graça do Espírito Santo que faz gerar Cristo em nós. Em Cristo somos também filhos e filhas, por divina adoção, do Pai Eterno. É por esta graça que podemos chamar Deus de Pai. Nesse sentido, São Paulo Apóstolo nos diz na Carta aos Romanos: “Vocês não receberam um Espírito de escravos para recair no medo, mas receberam um Espírito de filhos adotivos, por meio do qual clamamos: ‘Abbá, Pai!’”.

Ser alimentados em Graça é deixar-se conduzir pelo Espírito Santo. O Papa Leão XIV, na homilia de sua primeira missa de Pentecostes, como sucessor de Pedro, disse o seguinte: “O Espírito abre as fronteiras, principalmente dentro de nós. É o Dom que desvela a nossa vida para o amor. E essa presença do Senhor desfaz a nossa dureza, o nosso fechamento, o egoísmo, os medos que nos bloqueiam e o Narciso que faz-nos rodar apenas em torno de nós mesmos”. O Papa Leão XIV nos provoca a vencer o egoísmo, o fechamento e o medo do outro. Quem se alimenta da graça divina constrói redes de relações que aproximam as pessoas, criando pontes de amizade, afeto, respeito e proximidade.

No Evangelho, também ouvimos Jesus anunciar o Tempo da Graça. Ele, ao iniciar sua missão neste mundo, assim proclamou: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Enviou-me para proclamar a redenção dos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos, a proclamar o ano da graça do Senhor”. Estas palavras de Jesus tornaram-se o seu projeto de vida. Ele realizou todas elas com estrema perfeição. Tudo que Jesus fez e falou foi pleno do amor que cura, da misericórdia que acolhe, da esperança que renova a vida.

Temos fome e sede de Deus, porque temos fome e sede de eternidade, de felicidade e de vida plena. Sabendo ou não, sempre rezamos como Santo Agostinho: “Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti”. Como filhos e filhas do Pai Eterno, com humildade, desejamos ser alimentados pela Graça divina. Este alimento nós o encontramos, sobretudo na vida sacramental, na participação da Eucaristia, “fonte e ápice da vida cristã”, na escuta obediente da Palavra de Deus e nas obras de misericórdia.

A graça de Deus é o alimento que nos faz permanecer no caminho da fé, no peregrinar da esperança e no exercício da caridade. Na parábola da videira e dos ramos, Jesus disse: “quem fica unido a mim, e eu a ele, dará muito fruto, porque sem mim, vocês não podem fazer nada”. A graça divina é a seiva que nutre toda a nossa vida. Esta graça torna fértil o terreno do nosso coração para que a boa semente do Evangelho possa germinar e dar bons frutos em nós. O peregrino de esperança só é verdadeiramente peregrino de esperança, se vive assim.

O convite a cada um de nós hoje é o de viver este ano do Jubileu da Esperança como um tempo da graça do Pai Eterno em nossa vida. A Igreja nos ensina que a esperança é a virtude pela qual desejamos o Reino dos céus e a vida eterna como nosso felicidade, ponto toda a nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos, não nas nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo.

Irmãs e irmãos, outra fonte essencial que nos alimenta como peregrinos da esperança é a oração. A oração é o lugar da pedagogia divina. É na oração onde aprendemos a nos deixar conduzir pela vontade do Pai Eterno. É na oração que conhecemos e acolhemos os planos de amor do Pai em nossa vida. A oração é o respeito da nossa alma, o oxigênio da vida espiritual. Sobre isso, muito bem nos ensinou o Papa Bento XVI, quando disse: “os cristãos são chamados a tornar-se testemunhas de oração, precisamente porque o nosso mundo se encontra muitas vezes fechado ao horizonte divino e à esperança que contém o encontro com Deus. Na amizade profunda com Jesus e vivendo nele e com Ele a relação filial com o Pai, através da nossa oração fiel e constante, podemos abrir janelas para o Céu de Deus.

Os Evangelhos nos falam que Jesus foi homem de profunda oração Seu dia começava com a oração: “De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto”. Ele apreciou a solidão e o silencio. “Logo depois de despedir as multidões, Jesus subiu ao monte, para rezar. Ao anoitecer, Jesus continuava aí, sozinho”. Sao várias as citações bíblicas que mostram a prática da oração na vida de Jesus. Sua oração é parte essencial do seu dia, integrando todo seu existir e iluminando todo o seu agir. Ele também ensinou os discípulos a orarem. Ensinou o Pai Nosso como uma oração simples e sóbria, feita na humildade e na intimidade do coração dos discípulos e discípulas que vivem como irmãos e buscam o mesmo Pai, o mesmo Pão e mesmo Perdoa para todos.

Nosso mestre de oração é Jesus. Ele é o orante por excelência, o perfeito intercessor. No Evangelho de Lucas, por exemplo, Jesus se coloca em oração nos momentos fortes de sua vida. No início de sua vida pública, quando vai a João Batista para ser batizado, está em oração. Antes, de escolher os 12 apóstolos, Jesus passa a noite toda em oração; no monte da transfiguração, Jesus está em oração; no Getsêmani, antes de ser preso, Jesus está em oração; no alto da cruz, Jesus ora pelos seus algozes para que sejam perdoados. Esses momentos mostram a importância da oração na vida de Jesus e como ela também deve ter seu lugar privilegiado na vida dos peregrinos de Esperança. Quem não se alimenta da oração, se perde pelo caminho.

Sobre nossa vida de oração a verdade é esta: quem não reza, não sabe dizer ao Pai Eterno “faça-se em mim segundo a sua Palavra”, como fez Maria Santíssima; quem não reza, não tem convicção em dizer, como São Pedro “a quem iremos, Senhor? Tu tens as palavras de vida eterna”; quem não reza constrói sua casa sobre a areia; quem não reza, não faz a experiência de fé de São Paulo: “já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim”; quem não reza, não passa pela porta estreia; quem não reza, não sente o coração arder como os discípulos de Emaús; quem não reza, não vê a trave que está no seu próprio olho; quem não reza, não ama a gratuidade como o Bom samaritano; quem não reza, não dobra os joelhos, como fez Jesus, para lavar os pés dos irmãos; quem não reza, não renuncia a si mesmo, não toma a cruz para seguir Jesus.

Irmãs e irmãos, quem não se alimenta em graça e oração, não percebe a ação de Deus nos acontecimentos mais simples da vida. Constantino Xavier e Ana Rosa reconheceram, na fragilidade daquele pequeno medalhão, um sinal sagrado, uma mensagem divina. Gratidão ao Divino Pai Eterno pelos 185 anos desta amada e abençoada Romaria.

Que Maria Santíssima, a Mãe da Santa Esperança. Aquela que caminhou plenamente iluminada em graça e oração, seja nosso exemplo e nossa intercessora. Amém!

Última modificação em Quinta, 03 Julho 2025 08:36